Nunca postei duas vezes no mesmo dia, mas, como sempre há a primeira vez pra tudo, aqui vai. É que, deitada no sofá pensando um pouco na vida, no dia de amanhã (não adianta, por mais que curta essa data, sempre vem um pouco de tristeza...), lembrei de uma cena que presenciei hoje à tarde, e que me fez pensar em como levo a minha vida. Eu tinha passado na farmácia para comprar algumas coisas que sempre faltam, e quando estava no caixa pra pagar, do outro lado do vidro, no degrau da farmácia, havia um menino, de rua, de mais ou menos uns 13, 14 anos, nessa idade em que os meninos crescem, mas só no tamanho, sabe? Ficam compridos, mas magros, sem corpo, ainda desengonçados... E ele estava malvestido, logicamente, quase sem roupa na verdade, era mulato, e estava simplesmente brincando. Não sei o que era aquilo, mas pareciam uns tocos de borracha partida, com o que ele brincava como se fosse futebol de botão, ou pelo menos foi a imagem que me ficou. Fiquei olhando aquilo, e a moça que estava pagando na minha frente também ficou, e deve ter sentido o mesmo que eu senti, porque observava a cena com atenção. Não era nada bom de se ver. Na verdade, é estranho quando vemos alguém tão próximo a nós, por sua humanidade, mas ao mesmo tempo em um mundo tão distante, tão separado, quase inacessível... Peguei minhas compras de 26 reais e saí da farmácia, não deixando de pensar que aquele dinheiro, que tinha gasto sem pensar um segundo, seria uma fortuna para aquele garoto. Vim pra casa e esqueci (acho que fazemos isso todo o tempo, não é mesmo?).
Agora à noite, contudo, isso me veio à mente de novo, e o que pensei foi que, já que estou num momento de agradecimentos, não devemos agradecer somente pela família, pelo trabalho, pelo dinheiro ou pelo amor que temos, mas sim pelas possibilidades de escolha. Sempre falo aqui que as escolhas são importantes, pra me lembrar sempre disso, na verdade, mas isso nunca ficou tão claro como hoje. O que me diferenciava daquele menino não era somente a situação social, familiar, financeira, mas a possibilidade de escolher. Porque tem muita gente que tem tudo e perde porque não percebe o quanto a vida é direcionada pelas próprias escolhas. O que diferenciava aquele menino de mim era que, apesar de ele também poder escolher, para ele era muito mais difícil, porque não se consegue escolher e tomar as rédeas da própria vida nas mãos quando se tem que pensar no que se vai comer a cada refeição. Vive-se por impulso, por instinto. Mesmo que às vezes essas pessoas consigam sair disso e vislumbrar outros horizontes; claro, que geralmente com ajuda de alguém...
Não estou aqui fazendo uma campanha pelo social, mas pensando que o Cosmos me abençoou com escolhas, e é por elas que quero agradecer. E também lembrar que preciso ficar atenta a cada uma delas. Uma vez recebi um e-mail de um texto sobre um chapéu roxo, você provavelmente até já leu esse texto. Era algo como: você passa a vida toda sem usar o chapéu roxo por vários motivos, dependendo da idade, todos eles exteriores a você, até que com 80 anos você põe o chapéu roxo e sai... Não quero esperar até 80 anos pra usar o meu chapéu roxo. Tenho procurado usá-lo sempre que consigo, sempre que me permito, sempre que me lembro da importância da minha vida pra mim, sem dar atenção ao que os outros vão pensar, sejam amigos ou não. Porque as minhas escolhas só são importantes pra mim. Viver sob regras, sob o jugo de uma religião, sob o temor a um Deus que tem mais o que fazer do que ficar punindo quem está aqui embaixo é desperdiçar as próprias escolhas. Normas a serem obedecidas existem, leis também, mas nem tudo é regido por elas. Há uma grande margem de liberdade pessoal que lhe permite seguir suas idéias. Essa margem está no limite do outro. O que não é do outro, é seu. Com o que é seu você pode fazer o que quiser, até jogar no lixo. Mas, lembre-se: até mesmo esta escolha tem um preço. O que quero dizer é: aproveite que você tem muitas escolhas, a graça divina na sua vida está aí. Quanto ao garoto, esse terá que superar a luta pela sobrevivência pra conseguir perceber isso. Com certeza precisará de ajuda, da ajuda de alguém que escolheu fazer isso. E ajudar também pode ser uma escolha, não acha?